sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

[Drops 21] "Photoshop Moral"



"Photoshop Moral"

Imagens: FRAZÃO, Fernando; AGÊNCIA BRASIL. André Esteves a Caminho do Presídio. 26 Nov. 15. CC-BY-3.0-BR. Em: WIKIMEDIA COMMONS. https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Andr%C3%A9_Esteves_a_caminho_do_pres%C3%ADdio_02.jpg?uselang=pt-br. Capas adaptadas de: CARTA CAPITAL. http://www.cartacapital.com.br/politica/quem-e-andre-esteves-o-banqueiro-preso-pela-pf-1459.html/capas-revistas.  Acessos em: 27 Jan. 16. Agradecimentos a Paulo Loiola, RJ.


Dias atrás apareceu no meu Facebook uma reportagem antiga do jornal Extra que comparava os sanduíches vendidos nas redes de fast-food com as suas respectivas fotos nos anúncios, obviamente muito mais bonitas que a realidade. [1]

O uso de “retoques” na publicidade é motivo de questionamentos: qual o limite? Chega a ser engraçado conferir os piores erros de Photoshop em revistas e anúncios, alguns até difíceis de serem notados rapidamente. [2]

E as mulheres nas capas das revistas masculinas? Elas existem? Obviamente que algumas formas e aquela pele perfeita, bronzeada e sem estrias existem somente naquele tempo e local, ou seja, na própria capa. E com isso, será que ficamos em busca de uma perfeição que, simplesmente, não existe na realidade?

E o que dizer dos homens e mulheres de sucesso estampados nas capas das revistas de negócios? Eles também existem? Eles são aquilo que parecem ser?

Num ano em que a campanha “Unmask the Corrupt” (Desmascare o Corrupto) elege pelo voto cibernético internacional a Petrobras como o segundo maior caso mundial de “grande corrupção”, responder a estas perguntas requer um momento de reflexão. [3]

Sempre que vejo um homem ou uma mulher de sucesso na capa das revistas de negócios, como um exemplo a ser seguido e comemorado, eu me pergunto: “o que esta pessoa não teve que passar para estar ali”.

Penso assim porque existe um outro tipo de “Photoshop” que não é o físico somente, é o moral.

Ele existe porque o Brasil não é um país que dispõe de um solo fértil e ético para que as organizações floresçam de uma maneira idônea. Se você for uma pessoa muito ética no mundo dos negócios, corre o risco de receber o seguinte comentário: “é uma pessoa muito boazinha, mas não sabe como os negócios são feitos...”, ou algo similar.

Se você é uma pessoa comprometida com a ética, o quanto você consegue estar no mundo dos negócios? E ser um sucesso e exemplo de idoneidade a ser seguido e comemorado?

Obviamente que o Brasil já caminhou muito e alguns setores da nossa economia já conseguem, como exemplos, recolher todos os impostos e não ter caixa dois, algo que era muito comum nas organizações - e que, infelizmente, continua a ser em algumas.

Pois bem, hoje é um dia histórico para o país. É o dia em que a Odebrecht, a maior empreiteira do país, revela a todos como funciona o “Photoshop Moral” brasileiro. Pede desculpas por ter participado de práticas impróprias em suas atividades e assume compromissos públicos como “combater e não tolerar a corrupção em quaisquer de suas formas, inclusive extorsão e suborno”. [4]

Que este momento seja um divisor de águas. Dizem que a verdade liberta e eu espero que estejamos nos libertando de um momento sujo, muito sujo, na história das organizações brasileiras.

Eu desejo que você esteja sempre bem na foto.


segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

[Drops 20] E se naquela foto faltasse você? Um conto sobre criação e preenchimento do futuro.


Juliana Schneider na mesa do Schumacher College: agora, um conto vivido.
Foto disponível em: https://vidasemtransicao.wordpress.com/2011/09/10/cheguei.

Semana passada li um texto que dizia que quando criamos, preenchemos o nosso destino neste planeta. Nossas necessidades de criação podem ser muitas: criar um blog (risos), um novo negócio, uma família, uma nova receita... 

Juliana Schneider trabalhava na área de relações institucionais de uma grande empresa e sabia que a vida corporativa não preencheria as suas necessidades de criação. Tinha uma intuição - uma coisa que cada dia respeitava mais - que havia um movimento a ser feito. A cada conversa com amigos ou até desconhecidos, o próximo passo se revelava e esse movimento ficava mais claro até que entendeu que deveria ir para a Inglaterra, embora não soubesse o porquê.

Foi ao ler na revista Vida Simples uma reportagem de Giselle Paulino que esses passos até então intuitivos e sem uma lógica de repente ganharam um sentido. Ela se emocionou pelo texto e pelas fotos e sabia que precisava ir até aquele lugar. Depois de nove meses morando em Londres e se conhecendo a partir de diversos desafios, chega a hora de estudar no Schumacher College. Esse momento foi registrado no seu blog:

"As lágrimas caíram assim que meus olhos receberam a imagem daquela mesa, ao ar livre, onde no meu lugar estava a minha ausência. A foto na matéria e eu fora dela. Como um grande amor partido. Um conto não vivido".

Sua paixão pela sustentabilidade levou-a até o Schumacher para viver um ano como aluna do Mestrado em Ciências Holísticas, oito meses como voluntária e mais quatro meses como contratada da escola. Sua integração ao local fez dela a Coordenadora do Schumacher College aqui no Brasil e em pouco tempo se tornou Diretora Fundadora da Escola Schumacher Brasil (que está com inscrições abertas para a segunda edição do curso Certificado em Ciências Holísticas e Economia para a Transição).

Depois de conhecer a história da Juliana, ficam a perguntas: Qual é a minha necessidade de criação? E como estou preenchendo o meu futuro e o nosso futuro comum?

Desejo a você vários contos vividos.
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terça-feira, 5 de janeiro de 2016

[Drops 19] Satish Kumar no Brasil


Satish Kumar no Brasil

O indiano Satish Kumar é um ex-monge jainista que andou a pé da Índia à Europa numa cruzada antinuclear. No mês passado ele esteve em São Paulo apresentando a palestra “Alma, Solo e Sociedade” [ou Solo, Ser e Sociedade, o post que inaugurou o Drops de Sustentabilidade em 2012], uma proposta de tríade para os novos tempos.

Intimamente relacionado à promoção de uma vida sustentável, Satish declara que os três elementos “podem inspirar um pensamento verdadeiramente holístico. Eles podem trazer a natureza, a humanidade e a espiritualidade juntos” (KUMAR, 2008, p. 75).

Essas são algumas das principais frases que ele disse no encontro promovido pela Escola Schumacher Brasil, Palas Athena e SESC Vila Mariana:

“A natureza hoje é considerada como um recurso para a economia. Temos que repensar esta ideia, porque a natureza não pode ser isso. Ela é muito mais importante, ela é a fonte de toda a vida!”

“A economia deveria se aproximar da lógica da natureza: Se você planta uma semente de manga, você recebe milhares de mangas todos os anos. Se você coloca dinheiro no banco, o quanto ele se multiplica?”

“Nenhuma flor reclama da abelha tirar seu néctar, porque cada abelha tira um pouquinho de néctar de cada flor. Nós estamos errando com a natureza, nós estamos tirando muita coisa dela! Nós temos que reverencia-la, temos que tirar as nossas necessidades de lá, porém sem ganâncias”.

“Hoje nós não vivemos uma economia, vivemos uma egonomia”. 

“Solo, não dinheiro, é a nossa riqueza. O solo representa a natureza. Hoje somos ricos em dinheiro”.

“A chuva vem sem você ter cartão de crédito. Você não precisa pagar pela chuva”.

“Nosso planeta não é uma rocha morta, na Índia nossa terra é a nossa mãe. Só aquilo que está vivo pode suportar a vida”.

“Não podemos pensar que somos apenas corpo. Somos corpo e somos alma. Se compramos roupas caras para nos vestir, o que fazemos para a alma? Meditamos? As pessoas dizem que não tem tempo para isso”. 

“Na Índia, na ioga, nós reverenciamos o sol. É assim que a alma é alimentada, com a nossa incrível relação com a natureza, é dessa forma que teremos a felicidade interna”. 

“Fique sozinho, passe um tempo meditando e andando na natureza. Pergunte-se, ‘quem eu sou?’. Você é mais do que um brasileiro, um professor... você é mais que essas coisas todas. Isso leva à autorrealização”. 

“Eu não gasto tempo no Facebook, eu gosto de passar o tempo comigo. A tecnologia tem que ser usada com sabedoria, para que você não deixe de ter tempo para a contemplação, relacionamentos, filhos”. 

“Se você não se ama, como pode esperar que outras pessoas a amem? Cuidar da gente mesmo é fundamental”.

“Se você tiver algum lugar bonito para ir fora de São Paulo, vá! Se você puder fabricar coisas com as suas próprias mãos, fabrique! Viva perto da natureza, numa cidade pequena. Isso vai ser bom para São Paulo também, sair daqui. Você pode considerar trabalhar 3 dias somente e sair os outros dias de São Paulo”. 

“Não pague contas altas, pague contas baixas”. 

“Eu gosto do conceito de ‘simplicidade elegante’”.

“No momento o mundo está dividido em nacionalidades, políticas, religiões. São todos entendimentos estreitos. Antes de sermos americanos, indianos, etc, nós somos membros de uma família humana. Depois estas ‘divisões’ são transformadas em diversidade”. 

“Sem humildade não pode haver humanidade. Essas palavras vem da mesma raiz”.

“Sociedade significa criar uma nova humanidade”. 

“A guerra começa com o medo, a paz começa com a confiança”, citando Vinoba Bhave.

“O que move pessoas a mudanças positivas na vida? O que melhor inspira são os bons exemplos, como os de Gandhi, Madre Tereza, Paulo Freire, etc. Os livros são úteis, porém quando você vê algo que funciona, isso move você. Pratique aquilo que você acredita, isso é o mais inspirador para as pessoas”.

“Qual é a minha contribuição para esse mundo?”

“Os EUA estão há 500 anos perseguindo a felicidade e eles ainda não a encontraram. Minha recomendação: Parem de perseguir a felicidade, simplesmente sintam a felicidade!”


Referência bibliográfica:

KUMAR, Satish. You Are Therefore I Am: a declaration of dependence. Foxhole, Dartington, Totnes, Devon, UK: Green Books, 2008. 191 p.